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14/03/2011

Hoje é Dia Da Poesia, a minha preferida das Sete artes tradicionais.
Aonde a linguagem humana incorpora o que mais abstrato o homem carrega.
Vale então lembrar a bela e perfeita definição de Quintana:
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
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Então eu: Gullarmaníaca de carteirinha,
aproveito para indicar um dos meus livros de Poesias Reunidas preferidos : 

TODA POESIA de FERREIRA GULLAR.

Publicado em 1980, ele reúne toda a produção poética do autor, são versos de amor e luta social escritos em seus 50 anos de carreira.

Toda poesia é a suma de uma vida de poeta, um documento de experiência humana. a autobiografia de uma trajetória poética.

Caso não queira ou possa ler todo o livro, o que é uma pena, conheça minhas passagens preferidas: 

o delicioso Cordel ''Quem matou Aparecida" e poema ''Cantiga para não morrer''   (clica aqui e aqui.)
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17/04/2009

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

31/03/2009

Aprendizado


Ferreira Gullar
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

23/03/2009

Como dois e dois

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

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